domingo, setembro 27, 2009

O último depoimento

Depois da leitura do livro A varanda do Frangipani de Mia Couto , resolvemos, B girl e eu, criar um novo depoimento. Um novo pedacinho para esta história.
O livro trata de um asilo, a Fortaleza de São Nicolau que encontra-se em um lugar isolado de Moçambique. Lá os idosos que não tem mais família ficam alojados. São muito bem cuidados e tratados pela bela enfermeira Marta, mas não tanto pelo dono do lugar, Vasto Excelêncio. Este ex-soldado não é nem um pouco carinhoso com os velhinhos, o que os deixa com muita raiva. Vasto é casado com Ermelinda, não tem filhos, cuida do asilo. E é onde acontece o assassinato do diretor do asilo. Com vários depoimentos, Izidine Naita, o investigador, tenta descobrir quem é o culpado. Este é então o depoimento de Elimu Banga, criado por mim e por B-girl como já havia frisado antes.
"Era nosso último dia por aqui e foi neste, que Izidine encontrou uma peça chave para seu quebra-cabeça. Ainda me recordo:
- Você foi o único que ainda não depos, pois então, desembuche.
- Seja como for. Antes de lhe dizer o porquê de matar aquele ordinário, preciso lhe descrever alguns fatos.
Desde que me conheço por gente, desde que minha falecida mãe me nomeou Elimu Banga, decidi servir na guerra. Me dediquei a esta tarefa aprendendo a nadar e a lutar, a criar e destruir minas. Quando chegou a hora, estava devidamente preparado, ao contrário de Vasto que não sabia carregar uma arma. Apesar de suas dificuldades ele foi aprendendo as manhas do combate, mas nunca chegou a minha competência. Nós éramos comparados e observados todo o tempo. Vasto Excelêncio era considerado inferior, afinal eu dava os comandos.
Comecei sendo um soldado, um mero soldado. Lutava quando necessário, cuidava de doentes, ajudava. Depois de algum tempo notaram o meu esforço e competência e fui elevado ao cargo de general mor. Já Vasto, era um daqueles soldados que se ninguém o observasse era capaz de dar um tiro em seu próprio pé. Ele era um homem que gostava de ser elogiado, mas não fazia por merecer. Em todo o tempo de guerra, nunca ouvi um sequer adjetivo que o fizesse sentir orgulho. Entre muitos desses conflitos morais, percebia, que Vasto não se agradava comigo, muito pelo contrário, tinha raiva de mim. Não via isto como uma rivalidade, não fazia o correto para provocá-lo. E mesmo mostrando isso a este ordinário, nunca acreditou em mim. Depois que virei seu "supervisor" então, não fazia o favor de me olhar na cara.
- Inspetor, tudo que estou te dizendo vi com meus próprios olhos, diferentemente de muitos que aqui estão que não o conhecem suficientemente de longa data para explicar o motivo da ira que ele tem por todos. Pois então, lhe digo que o homem era raivoso, nunca sorria, mesmo quando a guerra acabou. Tínhamos que nos reerguer, melhorar nossas vidas e Vasto nunca quis ser diferente.
Ao término da guerra voltei para minha cidade natal. Caminhei durante quatro dias e ao chegar me deparei com algo que jamais havia imaginado. A cidade estava em ruínas e as poucas pessoas que ainda ousavam sair de dentro de suas casas me olhavam com olhos de dor. Ao chegar em casa senti uma vontade desesperadora de encontrar com minha família. Aquilo de certa forma parecia algum tipo de mau pressentimento já que eu nunca fui tão apegado a eles. E eu estava certo. Olhei para o chão e vi sangue que havia escorrido e manchara o assoalho.
- Izidine, prefiro não lhe descrever mais fatos, não aprecio relembrar estas cenas. Só sei que naquele momento meus pensamentos pairavam pelo ar, sem rumo. Quando consegui me recuperar tive apenas uma idéia, ir para a Fortaleza de São Nicolau.
Lá, achava eu, teria os cuidados que necessitava e seria acolhido por pessoas de mesma idade que eu.
- Adiantarei um pouco a história inspetor. O senhor deve estar achando desnecessárias todas essas palavras, mas para seu obséquio, elas são imprescindíveis para a conclusão do meu depoimento. Anote tudo ai, não perca uma mísera palavra, esta será, com certeza, a parte mais importante de todas.
Depois de todo o ocorrido, estava extremamente fragilizado e desnorteado. Não chegava a ponto de loucura, porém Vasto fazia de tudo pra acreditar nisso. Falava inverdades sobre mim, me humilhava na frente dos outros "velhos". Na verdade, tudo isso por eu considerar a Fortaleza um paraíso.
- E digo para o senhor, acho este lugar perfeito mesmo. Não quisesse você estar no meio do combate.
Não há nada mais pacífico e acolhedor do que este lugar. Sou até grato por cair neste pedaço de terra. Só não consigo engolir as desfeitas deste ordinário para com os outros velhinhos. É desumano.
Havia visto gente demais sofrer na guerra. Não desejava ter que ver mais frágeis humanos sofrerem. Foi ai que tive a idéia de matar Vasto. Queria que ele sofresse tudo aquilo que ele fez os outros sofrerem.
Cheguei em seu quarto a noite, não podia ter piedade. Apontei-lhe a arma e atirei a ultima bala. A bala que havia guardado já tinha dono, era dele, era pra ele. Depois que o tiro já foi dado não há mais nada a fazer.
- É isto que tenho a te dizer inspetor. Este crápula ordinário mereceu este final. Pergunte aos outros se sentem sua falta? Não. Eu fiz um bem a todos eles."

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